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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Keilista Karaíva - Garota Estileira

Quando cheguei no Guarujá, a sua família foi uma das primeiras que conheci. Curiosamente, você foi sempre a que tive menos contato. Notícias suas só tinha assim, an passant. Sempre voando. Uma hora no Sul, outra em Sampa, outra em Trancoso...

Mas em janeiro, quando te levei algumas vezes para a radioterapia em Santos, nos aproximamos. Mesmo com a morte vigiando da esquina, falávamos de vida. Das nossas vidas. Amores, dissabores e planos (e você tinha tantos!), o restaurante, sua filha, um novo amor,  talvez voltar a Trancoso, quem sabe?

Quem saberia? Pelo menos quem ousaria naquele momento, pensar na estupidez da inexorabilidade da morte, esse hiato sem fim, desmantelando todos esses planos? Não sei se atropelo o sujeito ali dizendo que “quem tem planos não morre”, ou, sei lá, acredito que seja melhor pensar assim que de fato, você não tenha morrido, mas se libertado daquele corpo doente que não combinava nada, nada, contigo. Uma mulher inquieta, ativa, irreverente, multitalentosa, que colocava paixão em tudo o que fazia. Como ficar presa naquele corpo carcomido?! Não era para você. Não mesmo!   

Vai, Keilista Karaiva! Vai ser livre de novo como sempre foi, ao sabor do vento. Vai visitar os corações abertos daqueles que te queriam tanto e tão bem, aqui, em Sampa, em Trancoso ou em qualquer outro lugar, vai sem medo.  A sua flor, a sua Antônia Flor, que pelo visto, será tão irreverente e determinada quanto a mãe, será muito amada por todos, tenho certeza.

Sabe, ontem mesmo, um cara que eu gosto muito, o Alessandro Martins, escreveu o seguinte: A grande pergunta não é se existe vida depois da morte, mas antes dela.” Quando li pensei em você e fiquei tranquila. Sei que a sua temporada por aqui foi curta, mas intensa, e só posso me despedir dizendo que foi um prazer te conhecer e fazer parte, pelo menos um pouquinho, da sua vida, garota “estileira” (nunca mais me esqueci do dia em que definiu assim a minha calça, "estileira"). VOCÊ, sim, era o estilo em forma de gente. Tão única e autêntica. Estilo seu, só seu, intensa. Coisas de quem sabe que a vida, independente da morte, pede urgência.

Valeu, Keila!


Bem vinda, para sempre, ao meu coração. Beijo! 

( Postado originalmente em 06/06/2013 Gaveta Virtual/blog pessoal)

Estrangeira

 Contra o tempo, corro tentando colocar o corpo, a cabeça e a casa em ordem. Há sempre o hiato na volta porque já não sei exatamente de onde volto. Não me reconheço mais em meus pares, agora tão díspares e igualmente queridos, para sempre amados. Estrangeira onde quer que eu vá, sempre é aqui, em mim, que me encontro, cavucando  meus desencontros, amores, dissabores, alegrias e afins.

O cotidiano bate à porta. Não abro, mas ele mete os dois pés na porta e entra. Por que uma empresa imagina aumentar a sua produtividade aumentando em uma hora diária a carga horária de trabalho? Por que a suspensão do carro está fazendo barulho? Por que o gato está tão magro? Por que essa planta murchou? Será que sentiu a minha falta? Bobagem! Nem pessoas estão murchando mais por saudade.

Entre meus emails, procuro por aquele que “vai mudar a minha vida”. Eu sei, ele não existe. Provavelmente nunca chegará, mas o gostoso é a espera no portão. Rodo pelasredes sociais e por alguns sites frequentemente visitados, cumprindo um rito quase sagrado (não ler é pecado), quando me vem à cabeça um post de um amigo  virtual, falando sobre a “possibilidade de querer ser um intelectual”:

Sim, possibilidade de querer ser porque ser é algo que não sei se alcançarei um dia. 
Poder abrir mão do conforto da ignorância e, ainda sim, desfrutar do prazer de "saborear" texturas e "observar" paladares diversos. Perder aos poucos o agradinho mais ou menos de enxergar as cores apenas em seus tons primários e experimentar a dor e o gozo dos múltiplos tons, entre opacos e desgastados, às vezes em cinzas variados ou brancos, de tanta luz. 
Em certos momentos, a mesma escolha que leva a quartos escuros de ausência de todas as cores, um breu e um medo - não, muitos medos-, incertezas e ansiedades. Há um quê de desilusão em experimentar os caminhos aos quais o trem da busca pelo conhecimento nos leva. Entretanto, é inegável que a excitação das descobertas, mesmo que nem sempre (ou quase nunca, em verdade) cromadas com o pincel da esperança, é elemento nobre desse (des)caminho.
Primeiro, a crise da grande mudança de patamar dos problemas a serem discutidos; depois, o aprofundamento da sensação de ser "bandido" no mundo. Logo em seguida, o desmanchar do senso comum, "mãe, inventaram minhas tradições" Tudo isto, ao som de Bille Holiday . (Welber Santos)
  
Não tenho a pretensão, perfeitamente cabível ao meu amigo, de me tornar uma intelectual. Por enquanto, vou tateando, vibrando quando vírgulas, crases e porquês não me dão rasteiras. Mas, Welber, como a gente costuma dizer quando um post é bom: “esse é pra levar pra vida! 


 Tudo isto, ao som de Jason Mraz, que me persegue há dias, não
sem
 razão. 

(Postado originalmente em 08/09/2013/Gaveta Virtual/blog pessoal)

É Dia de Davi!

  Na primeira vez que te vi, há quatro anos, você era rosa. Você chorou e eu sorri. Maior do que eu esperava, ocupou um espaço enorme em mim. Não me importei. Gostei! Tomou todo o meu tempo, meus dias, minha insônia e também os meus seios. Virou tema recorrente nas minhas rodas de conversa e assunto para a minha falta de assunto. Mas não me policiei.
     Eu me permiti lamber, cheirar, beijar, babar, errar e acertar. Aprendi a compartilhar, doar e receber. Ouvi muitos conselhos. Uns até segui. Outros, dei de ombros. Simpatias? Até hoje sei um vasto repertório, mas fazia só a do pontinho vermelho. Aquela do soluço. E não é que parava?!
     Recorri mesmo foi ao instinto. Não ao materno, mas sim,  ao de sobrevivência. Precisava "sobreviver", e bem, por você e por mim ao evento que é ter um filho, ainda que fosse o segundo, tão essencial, querido e diferente do primeiro, o Pedro.
     Davi é a minha segunda janela. Mais uma chance que tive de espiar com singularidade e generosidade o mundo que, com certeza, ficou bem melhor depois que eles chegaram. São meus dois olhos por onde enxergo através do amor. Onde me reconheço mais humana, mais condescendente até comigo. Pode ser clichê mas não me importo, vou me permitir. Porque com eles é assim:  vivo me permitindo e tenho sido redundante e obviamente FELIZ! Não vou me policiar...não com eles!  Na primeira vez que te vi, há quatro anos, você era rosa. Você chorou e eu sorri. Maior do que eu esperava, ocupou um espaço enorme em mim. Não me importei. Gostei! Tomou todo o meu tempo, meus dias, minha insônia e também os meus seios. Virou tema recorrente nas minhas rodas de conversa e assunto para a minha falta de assunto. Mas não me policiei.
     Eu me permiti lamber, cheirar, beijar, babar, errar e acertar. Aprendi a compartilhar, doar e receber. Ouvi muitos conselhos. Uns até segui. Outros, dei de ombros. Simpatias? Até hoje sei um vasto repertório, mas fazia só a do pontinho vermelho. Aquela do soluço. E não é que parava?!
     Recorri mesmo foi ao instinto. Não ao materno, mas sim,  ao de sobrevivência. Precisava "sobreviver", e bem, por você e por mim ao evento que é ter um filho, ainda que fosse o segundo, tão essencial, querido e diferente do primeiro, o Pedro.
     Davi é a minha segunda janela. Mais uma chance que tive de espiar com singularidade e generosidade o mundo que, com certeza, ficou bem melhor depois que eles chegaram. São meus dois olhos por onde enxergo através do amor. Onde me reconheço mais humana, mais condescendente até comigo. Pode ser clichê mas não me importo, vou me permitir. Porque com eles é assim:  vivo me permitindo e tenho sido redundante e obviamente FELIZ! Não vou me policiar...não com eles!



( Postado originalmente em 14/03/2012/Gaveta Virtual/blog pessoal)